publicado em: 10/06/2020

Bom senso, sociedade do consumo e COVID-19

Fariseus e representantes da economia preocupados com o fantasma da recessão, a queda do PIB e o problema do desemprego tem algo em comum. São ótimos em se fazerem teatralmente presentes em discussões para as quais tributam um pensamento contrário ao que seus desejos ou práticas acabam transmitindo.

Por si só, é uma realidade perversa a dicotomia farisaica entre saúde e economia. Pior ainda é aglomeração em tempos de pandemia com o aval de um plano de flexibilização do isolamento social para retomada da economia em quatro fases específicas conforme o discurso de “tendência de estabilização da curva de contágio pelo COVID-19” utilizado para desestabilizar o bom senso dos incautos em rebanho passivo.

Gente que desrespeita normas de higiene e de etiqueta social ao descartar seus próprios resíduos durante o trânsito pelas ruas, que urina em via pública ou que sofre com a falta de água encanada em casa, por exemplo, não está preparada para os efeitos de um vírus e da disputa hegemônica por mercados globais entre Estados Unidos e China.

Por isso, as pessoas que lotaram o comércio de Fortaleza durante a segunda-feira, 08-06-2020 na ânsia de retomada de suas vidas para a saciedade de suas necessidades realizaram o temerário sonho de Icaro voando perto do sol. Ao mesmo tempo, fortalecem discursos defendidos pelo mito de que “Deus acima de todos é quem protege”.

Ora, o desejo pelos serviços de um salão de beleza ou por uma roupa nova acaba reforçando o coro de vozes que renovam profecias apocalípticas sobre a ruína da economia e a queda da saúde tributária e fiscal dos entes federativos. No entanto, falta a urgente reflexão sobre o modelo de mundo e humanidade que a sociedade do descartável vem promovendo às custas da exploração dos recursos planetários e da mercantilização das relações humanas, reduzidas à precificação, ao consumismo e à individualidade.

Todos os que abandonam a segurança de seu lar para gastar seu dinheiro podem ser disseminadores de uma doença letal em parte considerável dos casos e esquecem que os mortos não contam histórias. Outrossim, os que se consideram jovens, fortes e sadios o suficiente para o convívio em espaços de aglomeração tornam-se idênticos aos que se referem de modo fatalístico aos mortos da COVID-19 com a frieza de um “E daí?”

Imaginar que o novo coronavírus está restrito a idosos ou sujeitos que sofrem comorbidades (diabetes, hipertensão, asma, obesidade e similares) é praticar roleta russa de olhos fechados. E mesmo que seus efeitos sejam mais perversos entre a população negra sem acesso à agua tratada, saneamento básico ou atendimento de urgência e emergência, a contaminação não respeita os países desenvolvidos e os não desenvolvidos, o nobre e o plebeu, o centro e a periferia nem os compulsivos de uma sociedade do supéfluo e do descartável que imita o canto hipnótico das mitológicas sereias.

Diante de uma demanda estrangulada pela pandemia e intensificação dos índices de desemprego, o excedente de produtos à espera de mercado consumidor acaba provocando uma nova Guerra da Secessão entre quem produz/vende e os que ainda podem consumir aquilo que as propagandas e a publicidade comercial divulgam

Nesta perspectiva. é incômodo ver empresários liderados pelo presidente da república exercerem pressão sobre o Supremo Tribunal Federal. Ainda pior é ouvir o empresário Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq, prever a “morte de CNPJ” num país onde CPF morre privado de políticas públicas para os mais empobrecidos.

As comprovadas percas de empresários da indústria e do comércio não são o mérito deste texto. O que está em jogo é a falta de bom senso e o sentimento de Superman que recobre a imaginação de quem lota o centro comercial de uma região para comprar o que precisa (ou só deseja) ou para, simplesmente, rever amigos porque segundo a comunicação oficial do governo “o pior está passando”.

Nenhum plano de retomada da economia baseado na melhoria (mais estatística, que efetiva e real) de indicadores (a ocupação de leitos, número de internações e óbitos causados pelo novo coronavírus) deve substituir o bom senso e a constatação de que faltam políticas públicas em favor de uma sociedade marcadamente desigual.

Graças a um estratégico discurso da necessidade econômica, os cearenses vão cupando espaços públicos sem considerar os riscos de novos ciclos da pandemia do COVID-19. Um exemplo de discurso estratégico é a necessidade de retomada de obras da construção civil num país onde o déficit habitacional revela o descaso para com largos contingentes populacionais de baixa renda forçados a viver sob o regime de adensamento excessivo (três ou mais pessoas por dormitório) e coabitação (mais de uma família por moradia) em plena pandemia.

A sede de comprar e de estar em locais de aglomeração por si só não melhora a economia cearense e muito menos a saúde da população sob a ameaça de explosão de novos casos de coronavírus em meio ao processo de afrouxamento das medidas de isolamento social e de retomada da atividade econômica de  um estado que até a segunda-feira, 08 de junho de 2020, apesar dos 46.361 recuperados, contabilizava 4.192 mortes, 66.218 infectados – sendo registrado 1.947 casos e 210 óbitos na passagem do dia 07 para o dia 08 de junho.

Se os setores da economia mobilizados em torno de uma caridade emergencial se importassem com um amplo desenvolvimento nacional e não com o aumento de seus lucros, suas decisões (ou omissões) não seriam responsáveis pelas tragédias humanas como as cracolândias das grandes metrópoles, a destruição de vidas pelo rompimento de barragens, a grilagem de terras, os conflitos agrários e o risco de aumento da COVID-19.

Os setores da economia que procuram “promover o desenvolvimento” do país acima de tudo são os mesmos que se omitem em relação aos mais empobrecidos e aos invisíveis da sociedade. Os samaritanos imperialistas do presente são os mesmos que fazem doações de campanhas eleitorais (com ou sem caixa 2), permitem as filas, o desconforto e os perigos do transporte público e geram os mecanismos de fome e pobreza com as quais direcionam as supostas necessidades não satisfeitas da população.

Pelo exposto, não é difícil perceber que o atraso na visita às lojas e aos shoppings, templos modernos do mundo contemporâneo, à barbearia, ao clube ou ao cinema pode ser desagradável mas é importante. A prática de isolamento físico como estratégia aprovada pela Organização Mundial da Saúde não signifia em verdade isolamento social mas uma atitude de valorização da vida, de bom senso diante das dificuldades pandêmicas e de respeito à memória de todos que tiveram sua existência material abreviada pelo SARS-COV II.

 
Referências

Ceará registra 210 novas mortes por coronavírus em 24h e total chega a 4.192. Disponível em https://www.opovo.com.br/coronavirus/2020/06/08/coronavirus-no-ceara-mortes-casos-confirmados-covid-19-8-junho-8-06.html.
 
AMADO, Guilherme. Empresário da 'morte de CNPJS' foi condenado duas vezes por cartel. Disponível em https://epoca.globo.com/guilherme-amado/empresario-da-morte-de-cnpjs-foi-condenado-duas-vezes-por-cartel-24421021.
 
ARANTES, José T. Déficit habitacional torna isolamento vertical inviável no Brasil. https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2020/04/deficit-habitacional-torna-isolamento-vertical-inviavel-no-brasil.html.
 
"Ipea: 18% dos brasileiros elegíveis ao auxílio emergencial estão “invisíveis”". Disponível em https://www.gazetadopovo.com.br/republica/breves/pge-contra-inquerito-das-fake-news-em-acao-contra-chapa-de-bolsonaro/

Foto: diariodonordeste

Doutor em Linguística Aplicada – PosLA – UECE – o diálogo enunciado concretamente é o fundamento e a energia que organizam as respostas e os sentidos da existência. Email: alfransbe@yahoo.com.br