publicado em: 08/07/2020

CHUVA MÍTICA DE IMPROPRIEDADES

Quando uma atividade é executada por um interino por razões urgentes e breves, a situação não é fácil. Mas quando o interino está no cargo há mais de cinquenta dias no meio de uma pandemia, a situação é mitologicamente crítica.

Se ter carteira de motorista fosse garantia suficiente de que qualquer motorista soubesse fazer o que um manobrista, um corredor de fórmula 1 ou um taxista faz com maestria, o trabalho do general Eduardo Pazuello no comando (?) do ministério da saúde poderia ao menos combater os sentimentos de medo e impotência que afetam a população em geral.

O presidente foi ágil para substituir Sérgio Moro por André Mendonça no Ministério da Justiça e Segurança Pública. Mas o ministério da saúde e o da educação estão vazios de uma referência compromissada com a gestão de políticas públicas em prol da população conforme o texto da constituição de 1988.

Luiz Henrique Mandetta (DEM) rapidamente foi substituído pela brevíssima passagem de Nelson Teich na pasta da saúde. O economista Carlos Decotelli e suas lacunas acadêmicas substituíram brevemente o polêmico Abraham Weintraub após uma curta vacância.

Estes fatos comprovam que o governo federal consegue agilizar a dança ministerial das cadeiras quando quer. Infelizmente, também escancaram a fraqueza dos quadros que cercam o governo do ex-capitão do exército. Além disso,  são uma comprovação de que interesses políticos são mais fortes e efetivos que questões técnicas.

Quando o presidente minimizou a pandemia metaforizando a maior crise de saúde pública desta contemporaneidade como "gripezinha", a sociedade brasileira ouviu uma impropriedade leviana porque o mundo já sofria com a COVID 19. Ao ser contaminado, o ungido das urnas eleitorais usou o termo"chuva" para se referir a um problema que está sendo utilizado oportunistamente para promover o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, medicamentos que potencializam riscos de arritmia cardíaca.

Na medida em que os ministérios da saúde e da educação permanecem acéfalos, a chuva mítica de impropriedades vai encharcando o solo brasileiro. Difícil esperar algo melhor de um presidente que age e fala de forma diferente. Esperar rigor e decoro de quem se aligerou em aprovar as reformas da previdência e do trabalho e o uso de pesticidas pelo agronegócio – mas coloca em segundo plano o combate à pandemia de COVID-19 e esquece o valor do FUNDEB para melhoria da educação nacional e de seus sujeitos – parece um sonho cada vez mais distante.

Ao que tudo indica, o combate à corrupção e a promoção da "nova política" ficaram apenas como propaganda eleitoral porque o homem que afronta as recomendações médicas e científicas globais no combate à pandemia prefere marionetes e não ministros. Tal como um He-man da política brasileira, armado com sua caneta, o presidente diplomado pelos poderes da justiça eleitoral não exitou em trocar ministros por gente mais alinhada ideologicamente com as diretrizes de seu governo que insiste em diminuir a imagem do Brasil com uma atitude subserviente aos EUA de Trump.

Em vez da promoção de ações para salvaguardar as necessidades do povo, o presidente – que não esconde suas predileções pelas reuniões com militares e empresários – insiste em sua omissão diante das falas de seus ministros que defendem a prisão dos ministros do STF ao mesmo tempo em que utilizam palavras de baixo calão. De tanto silenciar, o contexto demonstra sua conivência às falas ministeriais que defendem atitudes duvidosas quando o assunto é “passar a boiada” em se tratando de mudar o “regramento” sobre questões ambientais.

Os (ex-)ministros bolsonarianos insistem em inflar o ego de seu chefe quando preferem as redes sociais como veículo assíduo de diálogo (ideológico) com o povo brasileiro em geral e com seus apoiadores em particular – reunidos fisicamente naquilo que já ficou jocosamente conhecido como a “república do cercadinho”.

Em nome do padrão bolsonariano de governança, o interino Pazuello aprovou em 20-05-2020 o uso da (hidroxi)cloroquina no tratamento de pacientes coronainfectados. Em junho, de forma injustificável, o general da saúde alterou a metodologia de divulgação dos números da pandemia no Brasil. Como um messias do caos, o preconceituoso  Weintraub fez piada com marcas linguageiras do povo chinês para culpabilizar o país pela pandemia mundial, desqualificou os cursos de Filosofia (e por tabela, as ciências humanas e sociais) e não admininistrou possíveis e urgentes soluções para os deletérios efeitos da pandemia sobre a educação infantil, a básica e o ensino superior.

Já o ministro que imitou toscamente a famosa cena do filme 'Cantando na Chuva', com Gene Kelly para afirmar que estava chovendo fake news, que organizou a enquete para alterar a data de realização do ENEM 2020 – com duas opções para a 2021 – sem a presença das universidades no processo de tomada de decisão a respeito de um fato que interfere no calendário acadêmico de todo o país e que, condecorado presidencialmente, voou para os EUA é responsável por um fato positivo: sua saída revelou as incosistências morais e acadêmicas de um candidato ao cargo de ministro da educação que vinha para ser o primeiro negro do ministério de seu Messias.

 A rejeição a ministros de perfil técnico expõe o discurso falacioso de um governo esforçado em livrar o país da ideologia petista para implantar a sua própria. A ideologia de um governo que defende armas de fogo para um povo com dificuldades em conseguir emprego formal ou diploma universitário, quanto mais para ter posse e porte de arma.

Por isso, é dúbia a condição de um governo que se define “terrivelmente cristão” e defensor de um mítico modelo de família tradicional brasileira – esperemos que não seja aquele onde os homens costumam “pular a cercar”, mas são definidos como “Ricardão” enquanto as mulheres são metaforizadas como “piranhas”. É confusa a ideologia de um governo que abusa de palavrões após reduzir o Deus de Israel ao slogan eleitoreiro do “Deus acima de todos” – ação típica de um sepulcro caiado (Mateus, 23, 27) e que inicialmente queria um magro auxílio emergencial de R$ 200,00 para a população brasileira enfrentar a pandemia de COVID-19.

Neste momento, as palavras da música de Flávio Leandro ajudam a verbalizar o que a população anseia e merece: “Não, eu não quero enchentes de caridade
Só quero chuva de honestidade”. A chuva de impropriedades míticas do bolsonarismo tem a ver com o caráter intempestivo de um militar excluído dos quadros do exército e que nomeia ministros para resguardar sua família e suas decisões neoliberais.

Nesse contexto, a falta de efetividade do governo federal nas áreas de saúde e educação vem contribuindo para que a pandemia do novo coronavírus escancare a segregação social, política e econômica que trava a democratização do desenvolvimento do país com um emaranhado de desigualdades e violências com as quais são construídos discursos de oposição entre a saúde e a economia, por exemplo.

Pelo exposto até aqui, a falta de ministros da saúde e da educação efetiva a chuva mítica de impropriedades do título deste texto porque rega discursos elitistas de empresários mais preocupados com a morte de CNPJs do que de Josés e Marias. Isso agrava as injustiças sociais e o desrespeito para com a parcela da população que clama por políticas públicas sólidas o suficiente para garantir a equidade e a cidadania de todos pela promoção e acesso à saúde e à educação públicas, gratuitas e de qualidade.

 

Referências

Brasil completa 50 dias sem ministro titular na Saúde

https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/pol%C3%ADtica/brasil-completa-50-dias-sem-ministro-titular-na-sa%C3%BAde-1.445720

Ministro da Educação imita ''Cantando na Chuva'' para dizer que ''está chovendo fake news''. https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2019/05/30/interna_politica,1057897/ministro-educacao-imita-cantando-na-chuva-chovendo-fake-news.shtml

Flávio Leandro – Chuva de honestidade. https://www.youtube.com/watch?v=yQd-EhAXY8Y

Enquete sobre datas do Enem 2020 será entre 20 e 30 de junho; entre as três opções, duas preveem prova em 2021

https://g1.globo.com/educacao/enem/2020/noticia/2020/06/10/weintraub-diz-que-mec-vai-consultar-candidatos-ao-enem-sobre-datas-do-exame-entre-20-e-30-de-junho.ghtml

Doutor em Linguística Aplicada – PosLA – UECE – o diálogo enunciado concretamente é o fundamento e a energia que organizam as respostas e os sentidos da existência. Email: alfransbe@yahoo.com.br