publicado em: 03/04/2021

COVID LEVA ADAUTO BEZERRA

Não faltava quem dissesse que ele era interminável. José Adauto Bezerra foi sim um longevo, resistente e histórico. A COVID ao levou aos 94 anos. 

Ele estava internado há duas semanas em Fortaleza, e o quadro da doença foi-se agravando. E tirou da cena pública uma icônica figura do Ceará. 

O MILITAR
José Adauto Bezerra de Menezes nasceu em 1926 em Juazeiro do Norte, e em duplicata! Com  ele veio o irmão gêmeo univitelino, Humberto. 

A família ainda teria outros filhos, Orlando, Ivan, Leandro e uma filha, Alacoque Bezerra.

Aluno da Academia Militar das Agulhas Negras (RJ) onde concluiu o curso de Oficial do Exército, galgou várias posições na carreira militar. 

Aspirante a oficial da arma de artilharia (1949); Segundo-tenente (1950); Primeiro-tenente (1952) e Capitão (1954). E saiu formado da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (Esao). 

O CORONEL 
Estreou na política em 1958. Elegeu-se deputado estadual. Foram quatro mandatos, até 1970 (dois pela UDN e dois pela ARENA). E ocupou também a presidência da Assembleia Legislativa. 

Em 1974 foi indicado governador do Ceará pelo presidente Ernesto Geisel. Renunciou em 1978 para disputar vaga de deputado federal. 

Eleito, ficou em Brasília de 1979 a 1983. Entre os anos cinquenta e os oitenta, Adauto foi um dos mais fortes da política cearense. 

Com Virgílio Távora e César Cals formou uma trinca que disputava o poder em uma época resumida como o tempo dos coronéis. 

Como militar, Adauto Bezerra jamais foi um Coronel. A designação surgiu na política, onde a patente era um símbolo de líder forte.

Os três brigavam e se engalfinhavam, mas se compunham também, dependendo dos ventos e das marés da sobrevivência política. 

Em 1982 se uniram visando garantir a eleição de Gonzaga Mota para governador. O PDS venceu junto, com Adauto Bezerra de vice. 

Em 1985 um novo acordo. Adauto transferiu-se para o PFL, foi candidato a governador do Ceará e juntou os coronéis, mas foi derrotado pelo hoje Senador Tasso Jereissati, em 1986. 

Em 1990 comandou a Sudene durante a gestão de Fernando Collor, o último cargo público. 

LIDERANÇA 
Adauto nunca mais disputaria mandatos. Passou a se dedicar aos múltiplos negócios da família, com destaque para o BIC Banco. 

Tocou o BIC por anos ao lado do irmão Humberto, e se tornou proprietário de numerosas indústrias e de uma Rádio em Juazeiro do Norte. 

Mesmo sem mandatos, continuou filiado. Ficou no PFL quando virou DEM, e nos últimos anos migrou para o Progressistas (PP). 

Era também um conselheiro formal e informal de muitos políticos e lideranças diversas, que gostavam de medir sua opinião, já que uma das características de Adauto era se manter atualizado sobre a conjuntura política. 

CURIOSIDADES 
O prédio da Assembleia do Ceará inaugurado em 1977 leva o nome dele na fachada. Como deputado. Ele era governador à época. 

"Já que vão homenagear gente viva, melhor que lembrem que fui deputado", pediu. 

Na campanha para governador em 1986, o bordão, "eu te conheço Ceará", usado por
ele para lembrar a intimidade com a terra, ficou marcado pelo efeito contrário, pois foi explorado como continuismo. 

Acostumado ao estilo de "ajudar" na política, ou seja, doar dinheiro ou arranjar empregos, Adauto justificava que a pobreza extrema não deixava outra alternativa. 

Ele também foi um múltiplo doador para as mais diversas campanhas políticas, de direita e esquerda. Todas devidamente declaradas. 

"Sou um democrata, e a política só avança com contraditório, por isso tem dias em que saem políticos de direita do meu escritório e entram os da esquerda", contava. 

Adauto Bezerra também tinha uma tática infalível para se livrar de pidões. "Olha, eu não sou Adauto, eu sou Humberto".  

O irmão gêmeo, que também foi político usava a mesma estratégia, e funcionava, já que até quem os conhecia bem ficava em dúvida diante dos idênticos. 

ÚLTIMOS TEMPOS 
Apesar da idade avançada, Adauto esteve lúcido até o fim. Resistiu e vivenciou quase um século de fatos, só não foi páreo para a maior tragédia sanitária do mundo. 

Com ele morre também uma parte muito significativa da cearensidade raiz...

Publicado por Cláudio Teran
"Um cara que não se cansa de correr na direção contrária" Formado em Administração pela Universidade Federal do Ceará/UVA Cetrede