publicado em: 01/06/2020

Esperança negra

Na segunda-feira, 18-05-2020, João pedro, menino negro de 14 anos de São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro, morreu baleado na barriga no quintal de sua casa em ação policial cujo desfecho teve ainda o agravante de o garoto ter sido levado em um helicoptéro da polícia civil sem que sua família soubesse como ocorria o processo.

Já na sexta-feira, 29-05-2020, o ex-policial de Minneapolis, EUA, Derek Chauvin foi acusado por Mike Freeman, procurador do condado de Hennepin, de ter cometido na segunda-feira, 25-05-2020, o assassinato e o homicídio culposo do negro George Floyd, 46 anos, algemado e sufocado pelo joelho branco do preconceito.

Em ambos os casos, a vítima é negra, o agressor é o estado através de seu braço repressor, a polícia, e a morte é um “efeito colateral” decorrente da luta em defesa da lei e da ordem, infelizmente restrita a porções mais brancas e elitistas de uma sociedade responsável pelo violento e histórico projeto de empobrecimento do povo negro cujos sacrifícios promovem o desenvolvimento deste mundo contemporâneo.

Ao abordar a situação dos negros dos Estados Unidos, em um texto de 01 de setembro de 2016, Juarez Xavier elenca a “renda entre os grupos sociais, situação da população carcerária, condições escolares, violência policial e direito à moradia” como indicadores que caracterizam o fosso entre brancos e negros.

Na medida em que a argumentação de Juarez vai prosseguindo, suas palavras ajudam a analisar algumas das manifestações da comunidade negra não como violência, mas como uma resposta à violência dos opressores e ao silêncio ou letargia das autoridades do setor público ou do privado em suas zonas de conforto e segurança.

Para a superação das condições desiguais e violentas não basta sobreviver, mas prevalecer. A esperança negra pode e deve prevalecer desde que haja união entre governos e sociedade em geral para que sejam superadas práticas de comodismo ao estilo de Pilatos no julgamento de Cristo (evangelho de Mateus 27, 24).

Ora, seja por ação ou omissão, quanto mais os atores sociais lavam suas mãos da responsabilidade pelos séculos de extermínio da população negra,  mais os opressores insistem em pilhar a dignidade humana  e a esperança dos povos escravizados tanto no continente africano como no americano e no resto do mundo.

Tão terrível quanto o preconceito bruto é o discurso de quem acredita ser “teoria da conspiração” ou “coisa de gente cheia de complexo de perseguição” ou algo sem fundamentação ou comprovação num mundo embalado maliciosamente pelo sonho estadunidense do “American Way of Life” e no mito de uma “democracia racial”.

A história brasileira comprova que foi o negro liberto por força de lei que se sujeitou à subalternidade de um mundo em que não houve reparação ou indenização pelo “sangue, suor e lágrimas” que enriqueceram as elites. Foi o negro massacrado nos quilombos, em Canudos e no Contestado que sobreviveu para se envergonhar da melanina de sua epiderme mesmo quando não percebe tal fato no momento em que se define ou se declara “marromzinho”, “escurinho”, pardo ou moreno, por exemplo.

Se a sociedade não se mobilizar coletivamente para discutir as formas de promoção de uma sociedade mais plural e etnicamente mais responsável e fraterna será em vão todo o sangue derramado pelos negros torturados, envergonhados ou massacrados pela Ku Klux Klan dos Estados Unidos do século XIX, pela segregação racial do Apartheid sulafricano do século XX e pela desassistência de políticas públicas voltadas para a população negra em pleno século XXI ao redor do mundo.

Negros e negras não são mera estatística ou um elemento inferior do passado ou dos guetos e periferias. Apesar dos grandes nomes negros da história humana, há uma série de violências políticas e linguísticas que alimentam e reformulam a ideologia do preconceito étnico-racial no contexto das sociedades contemporâneas.

Por isso, a esperança negra ainda é uma semente no início de seu desenvolvimento. Portanto, ela precisa ser cuidada com carinho e coragem políticas. Afinal, toda esperança é proporcional ao exercício do diálogo e da ação, à vivência alegre e coletiva da solidariedade e da coragem para uma nova história não como utopia, mas como uma realidade dinâmica a ser ocupada e ressignificada.

Neste ponto, organismos da sociedade como a escola, a família, o governo, as igrejas e as várias instituições sociais em atividade são importantes para a construção de espaços de discussão e uma tomada de posicionamentos menos preconceituosos e mais igualitários capazes de combater ideologias e radicalismos políticos de dominação e de ataques à inequívoca pluralidade do mundo contemporâneo. Eis a esperança negra.

Fiat Lux!

 

FONTES PESQUISADAS

Conflitos raciais nos EUA -  http://unespciencia.com.br/2016/09/01/sociedade-78/

 

Adolescente desaparecido em ação policial é encontrado morto no Rio de Janeiro -  https://www.brasildefato.com.br/2020/05/19/adolescente-desaparecido-em-acao-policial-e-encontrado-morto-no-rio-de-janeiro


O mito da democracia racial está fundamentado na obra de Gilberto Freyre, Casa-grande & Senzala (1933).

Doutor em Linguística Aplicada – PosLA – UECE – o diálogo enunciado concretamente é o fundamento e a energia que organizam as respostas e os sentidos da existência. Email: alfransbe@yahoo.com.br