publicado em: 14/07/2020

HOME OFFICE

Ruy Castro fez uma boa reflexão para a Folha sobre essa coisa de trabalhar em casa. Ele só vê vantagens. Acha que o escritório acabou. 

Penso diferente. Ruy é mais velho que eu, mesmo assim me atrevo a questiona-lo. Para começar, a  casa jamais deveria ser local de trabalho. 

Ele e eu somos do tempo em que quando a gente ia embora ia mesmo, pra casa, e lá, trabalho não, mesmo no caso de jornalistas como nós. 

Hoje é escravidão. "Porque você não falou, eu te vi on line, ficou até não sei que horas". Raios! E o novo normal é off-line só em modo morto?

Eu já trabalhava muito em casa antes da pandemia, por força dessa urgente escravização do jornalismo de nunca desligar, atualizar sempre, postar a mais nova, reagir às repercussões. Piorou com o home office e sinto saudades da tranquilidade que os tempos modernos tiraram da gente. 

Antigamente - olha não é sobre saudosismo, é sobre tranquilidade - realmente podíamos parar e ouvir música, ler um livro, desfrutar do tempo, e refletir sobre "Time",  as palavras certeiras da letra do Pink Floyd, viver e envelhecer.  

Há ainda um problema de espaço pois em home office você se espalha - eu me espalho - com as telas, os sons, o barulho que produzo e que em face do ambiente modesto, atrapalha a família no sagrado direito de estar em casa. 

Nem falo de socializar, coisa que o escritório presencial permite. Ou permitia. Entre num hoje, e os autômatos estão lá com as caras pregadas a uma tela, o smart na tomada (porque nunca jamais pode descarregar) e conversando sem balbuciar, rindo e reagindo com quem ali não está. Então, Ruy Castro, sei não. 

Simplesmente não vejo meio termo entre o home office e o escritório presencial quando tudo isso passar - se passar. 

Mas pensando bem, é mesmo vantajoso não desligar nunca? Estamos condenados a escravidão tecnológica que nos empurra e nos prende on line fields forever? 

"Então você acha que consegue distinguir O paraíso do inferno? Céus azuis da dor? Consegue distinguir um campo esverdeado De um trilho de aço gelado? Um sorriso de uma máscara? Você acha que consegue distinguir"?

FOTO 
Jack Lemmon em cena do fime de 1960,"Se Meu Apartamento Falasse" (roubada da postagem do Ruy Castro).  
Citação: "Wish You Were Here'

Publicado por Cláudio Teran
"Um cara que não se cansa de correr na direção contrária" Formado em Administração pela Universidade Federal do Ceará/UVA Cetrede