publicado em: 15/05/2020

SERENATA DO ADEUS

Nelson Teich foi ele mesmo ao falar, mas não tanto. Entre tímido e nervoso ao se despedir, falou mais pelo que achou melhor não dizer.

"A vida é feita de escolhas", começou. E ao findar avisou que aceitou o ministério "não pelo cargo, mas por acreditar que poderia ajudar o país".

Os recados, aquilo que ele sutilmente não disse, merecem uma jubilosa interpretação porque Teich demonstrou o que falta a Jair. Caráter. 

Defendeu o papel do SUS, saudou quem está na linha de frente trabalhando, e deixou claro a moda dele que ao fim e ao cabo só podemos confiar nos governadores e prefeitos, já que não temos um presidente de fato. 

Fosse Teich oportunista teria revelado que não dava mais pra suportar a humilhação que sofreu diante de um irresponsável, inconsequente, grosso medíocre, arrogante e ignorante. 

Na quarta-feira passada um doutor como Teich teve que ouvir a defesa estúpida e obstinada do uso da cloroquina por cima de pau e pedra, não por sua eficácia. Jair Bolsonaro só quer salvar o próprio governo e se apagará em qualquer outra coisa que julgue que possa dar certo para manter seu discurso negacionista. 

Não dá. Nenhum médico vai arriscar seu nome ao ponto de ir contra o múnus da medicina, que só pode se mover a luz da ciência, nunca jamais por achismos ou arroubos delirantes.  

O que fazer? Teich ainda tentou. O plano dele, de ampliar a testagem é bom e poderia trazer resultados eficientes para enfrentar a pandemiatecnicamente, mas como fazer com Jair? 

Tivemos um Nelson Teich com a integridade restaurada ao sair. Deixou claro que o sistema de saúde é tripartite, com estados e municípios a frente, na ponta, enquanto o papel federal via Ministério da Saúde é planejar e orientar. Não tem como mudar isso salvo se Jair vestir um jaleco e lançar mão de um bisturi para rasgar, como gostaria, a Constituição federal. 

Um novo ministro virá, mas no momento em que dizer SIM deve estar ciente que Jair deseja dele que seja contra o isolamento, a favor da economia, que trate doente de COVID como eleitor e saia distribuindo cloroquina. 

Nosso problema real continua. A conta dos mortos avança enquanto do governo federal só vem crise, balbúrdia, e gestão zero. 

Lá fora piora a imagem do país crise após crise. Nações do G-8 estão recomendando que uma parte dos funcionários de suas embaixadas voltem para casa e fujam da gestão temerária da pandemia. 
 
Até quando a elite política e econômica, e as Forças Armadas com seu histórico de golpismo continuarão bancando e aturando Jair?

Publicado por Cláudio Teran
"Um cara que não se cansa de correr na direção contrária" Formado em Administração pela Universidade Federal do Ceará/UVA Cetrede